Durante o desenvolvimento fetal, os testículos se formam dentro do abdome e descem até o escroto através do canal inguinal — processo que normalmente se completa até o nascimento ou nos primeiros meses de vida. Quando esse percurso é interrompido, o testículo fica retido em algum ponto do trajeto: dentro do abdome, no canal inguinal ou na virilha. Essa condição é chamada de criptorquidia — do grego “testículo oculto”.

criptorquidia testículo não desceu - illustration

É a alteração genital congênita mais comum em meninos — presente em 2-4% dos recém-nascidos a termo e em até 30% dos prematuros. Na grande maioria dos casos, o testículo desce nos primeiros meses de vida. Mas quando não desce, o tratamento precoce é fundamental para preservar a fertilidade e reduzir o risco de câncer testicular.

O Dr. Ricardo Inserra, urologista CRM-SP 184.614, explica o que é a criptorquidia, por que ela ocorre, quais são os riscos de não tratar e qual é o melhor momento para a cirurgia.

Resumo rápido: Criptorquidia é a ausência de um ou ambos os testículos no escroto ao nascimento. Pode resolver espontaneamente até os 6 meses de idade. Após essa idade, o tratamento é necessário — preferencialmente cirúrgico (orquidopexia) entre 6 e 18 meses. Não tratar aumenta o risco de infertilidade e câncer testicular.

Como Ocorre a Descida Normal dos Testículos

Os testículos se formam na região lombar retroperitoneal por volta da 6ª semana de gestação. Entre a 28ª e 40ª semana, migram para o escroto sob influência hormonal (testosterona e INSL3) e mecânica (gubernáculo testicular — ligamento que guia a descida).

A descida ocorre em duas fases:

Qualquer falha nesse processo — hormonal, anatômica ou mecânica — pode resultar em criptorquidia.

Tipos e Localização

Tipo Localização Frequência Diagnóstico
Canalicular Canal inguinal ~70% dos casos Palpável no exame físico
Intra-abdominal Dentro do abdome ~15% dos casos Impalpável — ultrassom/laparoscopia
Ectópico Fora do trajeto normal (perineal, femoral) ~5% dos casos Palpável em localização atípica
Atrófico/ausente Testículo reabsorvido (vanishing testis) ~10% dos impalpáveis Confirmado na laparoscopia
Retrátil Sobe e desce — não é criptorquidia verdadeira Comum em pré-escolares Desce ao escroto em repouso

criptorquidia testículo não desceu - guide

Por Que Não Tratar É Perigoso

O testículo não descido fica exposto a uma temperatura 1,5-2°C acima da temperatura escrotal ideal para a espermatogênese. Esse excesso de calor causa dano progressivo e irreversível às células germinativas — as células que produzem espermatozoides.

Risco de infertilidade:

Risco de câncer testicular:

Outros riscos: torção testicular (testículo inguinal é mais suscetível), hérnia inguinal associada (presente em ~90% dos casos de criptorquidia), trauma.

Diagnóstico

O diagnóstico é fundamentalmente clínico — realizado pelo pediatra ou urologista no exame físico. A técnica correta exige que o examinador palpe o escroto e o canal inguinal com a criança relaxada e aquecida, evitando o reflexo cremastérico que pode retrair um testículo normalmente posicionado.

Testículo palpável: não requer exame de imagem para diagnóstico — o ultrassom não muda a conduta cirúrgica.

Testículo impalpável: necessita investigação adicional:

Tratamento — Orquidopexia

A orquidopexia é a cirurgia de fixação do testículo no escroto. É o tratamento padrão para a criptorquidia.

Quando operar: entre 6 e 18 meses de idade — consenso das principais diretrizes internacionais. Operar antes de 1 ano oferece o maior benefício para a fertilidade.

Técnica para testículo palpável (inguinal):

Técnica para testículo impalpável (intra-abdominal):

Tratamento hormonal (hCG ou análogos de GnRH): pode induzir descida em alguns casos de testículo inguinal baixo — taxa de sucesso de 15-25%. Não substitui a cirurgia como tratamento primário, mas pode ser usado como adjuvante.

Seguimento Após o Tratamento

Mesmo após a orquidopexia bem-sucedida, o seguimento é importante:

Criança com testículo não palpável no escroto ou adulto com histórico de criptorquidia?

O Dr. Ricardo Inserra realiza avaliação urológica pediátrica e de adultos para diagnóstico e tratamento da criptorquidia.

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Perguntas Frequentes sobre Criptorquidia

Criptorquidia resolve sozinha?

Em recém-nascidos, especialmente prematuros, o testículo pode descer espontaneamente nos primeiros 3-6 meses de vida. Após os 6 meses de idade, a descida espontânea é improvável e o tratamento deve ser planejado. A cirurgia (orquidopexia) é recomendada entre os 6 e 18 meses de idade para o melhor prognóstico de fertilidade e redução do risco de câncer.

Criptorquidia causa infertilidade?

O testículo não descido fica exposto a temperatura mais alta que o escroto, danificando progressivamente as células que produzem espermatozoides. Criptorquidia bilateral não tratada causa infertilidade na maioria dos casos. Unilateral tratada precocemente (antes dos 2 anos) tem impacto menor na fertilidade — mas mesmo assim pode reduzir a contagem de espermatozoides. O espermograma na vida adulta é recomendado para esses casos.

Criptorquidia aumenta o risco de câncer testicular?

Sim. Homens com histórico de criptorquidia têm risco 3-5 vezes maior de desenvolver câncer testicular comparado à população geral. Esse risco é maior para testículo intra-abdominal e criptorquidia diagnosticada tardiamente. A orquidopexia precoce reduz, mas não elimina, esse risco. O autoexame testicular mensal é fundamental nesses pacientes — qualquer nódulo ou endurecimento deve ser investigado imediatamente.

Qual a idade ideal para operar a criptorquidia?

O consenso das principais diretrizes (AUA, EAU, SBU) recomenda a orquidopexia entre 6 e 18 meses de idade. Operar antes dos 2 anos oferece o melhor prognóstico para preservação da fertilidade. Cirurgia após os 2 anos ainda é benéfica para reduzir o risco de câncer e permitir o autoexame e a vigilância, mas o benefício para a fertilidade é progressivamente menor quanto mais tarde for realizada.

Criptorquidia pode ser confundida com testículo retrátil?

Sim — essa distinção clínica é muito importante. O testículo retrátil sobe para a virilha em resposta ao frio, ao toque ou ao choro (reflexo cremastérico exagerado), mas desce espontaneamente ao escroto em repouso e em ambiente aquecido. Não é criptorquidia verdadeira e geralmente não requer cirurgia — apenas acompanhamento regular. O testículo verdadeiramente não descido não desce espontaneamente e requer tratamento.

Artigo elaborado pelo Dr. Ricardo Inserra, Urologista CRM-SP 184.614, RQE 135617. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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