Cansaço que não passa com descanso. Queda de libido que parece não ter explicação. Dificuldade de ganhar músculo apesar do treino. Humor oscilante, foco reduzido, sensação de que “algo não está certo”. Muitos homens convivem com esses sintomas por anos, atribuindo-os ao estresse ou ao envelhecimento normal — sem saber que podem ser manifestações de hipogonadismo masculino, ou seja, deficiência de testosterona.
O hipogonadismo não é apenas uma questão de desempenho sexual. A testosterona é um hormônio que influencia a composição corporal, a saúde óssea, o metabolismo, o humor, a cognição e a saúde cardiovascular. Sua deficiência tem impacto sistêmico — e seu tratamento, quando bem indicado, pode transformar a qualidade de vida.
O Dr. Ricardo Inserra, urologista CRM-SP 184.614, explica o que é o hipogonadismo masculino, como reconhecer seus sintomas, como o diagnóstico é feito e quais são as opções de tratamento disponíveis.
O Que É o Hipogonadismo Masculino
A testosterona é produzida principalmente pelos testículos (células de Leydig), sob estimulação do hormônio LH secretado pela hipófise, que por sua vez é controlada pelo GnRH hipotalâmico. Esse eixo — hipotálamo → hipófise → testículo — regula toda a produção hormonal masculina.
O hipogonadismo ocorre quando os testículos não produzem testosterona suficiente para atender às necessidades do organismo. Pode ser causado por:
- Falha primária: problema nos próprios testículos (hipogonadismo primário ou hipergonadotrófico) — LH e FSH ficam elevados como “pedido de socorro” da hipófise
- Falha central: problema no hipotálamo ou hipófise que não estimulam adequadamente os testículos (hipogonadismo secundário ou hipogonadotrófico) — LH e FSH ficam baixos ou inapropriadamente normais
Causas por Tipo
| Tipo | Causa | LH/FSH |
|---|---|---|
| Primário (falência testicular) | Síndrome de Klinefelter (47,XXY) | Elevados |
| Criptorquidia bilateral não tratada | Elevados | |
| Orquite (caxumba, autoimune) | Elevados | |
| Trauma testicular bilateral | Elevados | |
| Radioterapia / quimioterapia | Elevados | |
| Secundário (falha central) | Obesidade / síndrome metabólica | Baixos/normais |
| Hiperprolactinemia (adenoma hipofisário) | Baixos/normais | |
| Uso crônico de opioides, corticoides, anabolizantes | Baixos | |
| Síndrome de Kallmann (congênita) | Baixos | |
| Hipogonadismo tardio do envelhecimento | Variáveis |
Sintomas do Hipogonadismo
Os sintomas variam conforme a intensidade da deficiência e a faixa etária. Podem ser divididos em três domínios:
Sintomas sexuais:
- Queda ou ausência de libido — frequentemente o primeiro sintoma
- Disfunção erétil — especialmente redução de ereções espontâneas e noturnas
- Redução do volume ejaculatório
- Infertilidade
Sintomas físicos:
- Redução de massa muscular e força
- Aumento de gordura corporal — especialmente abdominal e ginecomastia
- Redução de pelos corporais e faciais
- Osteoporose e aumento do risco de fraturas
- Redução do volume testicular
- Ondas de calor (fogachos) em casos graves
Sintomas psicológicos e cognitivos:
- Fadiga persistente e falta de energia
- Humor deprimido, irritabilidade
- Dificuldade de concentração e memória
- Redução da motivação e “drive” geral
- Insônia
Diagnóstico
O diagnóstico requer a combinação de sintomas clínicos e confirmação laboratorial:
Testosterona total matinal: Colhida entre 7h e 10h (pico circadiano). Deve ser repetida em dois dias diferentes para confirmação. Valor < 300 ng/dL com sintomas compatíveis confirma o diagnóstico. Valores entre 300-400 ng/dL em pacientes sintomáticos entram na “zona cinzenta” — contexto clínico define a conduta.
LH e FSH: Diferenciam hipogonadismo primário (LH/FSH altos) de secundário (LH/FSH baixos/normais). Fundamentais para guiar a investigação etiológica.
Prolactina: Hiperprolactinemia é causa reversível de hipogonadismo secundário — deve ser descartada em todos os casos.
Testosterona livre e SHBG: Em homens obesos ou idosos, a SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais) pode estar elevada, reduzindo a fração biologicamente ativa. A testosterona livre calculada é mais representativa nesses casos.
Hemograma, PSA, lipidograma: Necessários antes de iniciar TRT — PSA basal e hematócrito são parâmetros de monitoramento durante o tratamento.
Opções de Tratamento — TRT
A terapia de reposição de testosterona (TRT) tem como objetivo restaurar os níveis fisiológicos de testosterona e aliviar os sintomas. Diversas formas estão disponíveis:
- Undecanoato de testosterona injetável (1000 mg IM): Injeção a cada 10-14 semanas. Vantagem: praticidade (poucas aplicações/ano). Desvantagem: flutuação de níveis nas primeiras semanas
- Cipionato ou enantato de testosterona (200 mg IM): Injeção a cada 2-3 semanas. Mais acessível. Flutuação maior de humor e energia entre as doses
- Géis transdérmicos (1-2%): Aplicação diária nos ombros ou abdome. Níveis mais estáveis. Risco de transferência para parceiras/crianças por contato
- Adesivos transdérmicos: Menor adesão por irritação cutânea
- Testosterona oral (undecanoato): Tomada com refeição gordurosa. Absorção variável
Alternativas à TRT (para preservar fertilidade):
- Clomifeno: Modulador seletivo do receptor de estrogênio — estimula a hipófise a produzir mais LH/FSH, aumentando a testosterona endógena sem suprimir a espermatogênese
- Gonadotrofinas (hCG + FSH): Estimulam diretamente os testículos. Opção para hipogonadismo hipogonadotrófico com desejo de fertilidade
Com sintomas de cansaço, queda de libido ou dificuldade de concentração?
O Dr. Ricardo Inserra realiza avaliação hormonal completa e tratamento especializado do hipogonadismo masculino.
Perguntas Frequentes sobre Hipogonadismo
Hipogonadismo tem cura?
Depende da causa. Hipogonadismo secundário por obesidade, uso de opioides ou hiperprolactinemia pode ser revertido tratando a causa subjacente — emagrecimento significativo, por exemplo, pode normalizar os níveis de testosterona em homens obesos. Hipogonadismo primário por falência testicular ou o hipogonadismo do envelhecimento geralmente requerem TRT contínua para manter os níveis adequados.
Reposição de testosterona causa câncer de próstata?
Estudos modernos não confirmam que a TRT cause câncer de próstata em homens sem a doença. A teoria de que testosterona “alimenta” o câncer foi amplamente revisada. Entretanto, a TRT é contraindicada em homens com câncer de próstata ativo ou suspeito, pois pode estimular um tumor já existente. Por isso, PSA e toque retal antes e durante o tratamento são obrigatórios.
Qual o nível normal de testosterona?
A testosterona total normal em homens adultos é de 300 a 1000 ng/dL, conforme a maioria dos laboratórios e diretrizes. Valores abaixo de 300 ng/dL com sintomas compatíveis são considerados diagnósticos de hipogonadismo. O exame deve ser colhido pela manhã (7h-10h), quando os níveis são mais altos, e confirmado em duas amostras em dias diferentes para evitar variações circadianas e laboratoriais.
TRT afeta a fertilidade?
Sim. A reposição exógena de testosterona suprime o eixo hipotálamo-hipófise-testículo, reduzindo ou zerando a produção de espermatozoides — podendo causar azoospermia (ausência de espermatozoides). Homens que desejam ter filhos não devem usar TRT convencional. A alternativa é o clomifeno ou gonadotrofinas (hCG), que estimulam a produção endógena de testosterona sem suprimir a espermatogênese.
Hipogonadismo causa depressão?
Sim. A testosterona tem efeito direto no humor, energia e cognição via receptores cerebrais. Homens com hipogonadismo frequentemente apresentam humor deprimido, irritabilidade, dificuldade de concentração e perda de motivação. Esses sintomas são frequentemente confundidos com depressão primária e tratados com antidepressivos sem investigação hormonal. A testosterona deve ser dosada em todo homem com depressão que não responde ao tratamento convencional.
Artigo elaborado pelo Dr. Ricardo Inserra, Urologista CRM-SP 184.614, RQE 135617. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
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